O Flautista de Hamelin - E os Fatos Macabros que Podem ter Dado Origem ao Conto.





   Contos folclóricos podem parecer apenas ficção e fantasia mas são muito mais que isso. Até a ficção surge por um motivo, e está aí o grande valor dos chamados contos de fadas; porque tais contos folclóricos é literatura espontânea. Surgem em uma comunidade e vão sendo recontadas e sendo espalhadas com uma força tal que chega até aos nossos ouvidos, por vezes milhares de anos mais jovens do que os primeiros ouvidos que as ouviram. Essa incrível força que leva tais histórias pelos milênios são, na verdade, os motivos pelos quais tais histórias fictícias tornaram-se necessárias para as primeiras comunidades humanas: os medos desses povos, suas mágoas e por que não, a esperança deles. Um bom historiador aprecia as informações psicossociais, veladas nas entranhas dessas histórias fantásticas, e as decodifica para prover cor ao quadro que a historiografia faz desses povos antigos, cor esta que não é provida pelos frios documentos e artefatos que são as fontes históricas mais comuns.
   Existem até pessoas que acreditam que os contos da fadas são, de alguma forma, relatos de eventos reais, por mais fantasiosos que pareçam. Eu, pessoalmente, não chego a esse extremo de conferir veracidade a contos folclóricos. A minha linha de pensamento é que eventos reais poderiam sim motivar a criação dessas histórias, mas que a ficção e fantasia contida nelas seriam meios de tornar esses eventos mais fáceis de serem aceitos, ou teriam o objetivo de alertar as crianças, em uma tentativa de evitar que tais eventos reais se repetissem futuramente.
   Eu já tratei dessa temática aqui no "Histórias", apresentando para os meus leitores versões macabras da história da Chapeuzinho-Vermelho, e foi na pesquisa que fiz para este artigo que eu desenvolvi esta hipótese, de que contos folclóricos estariam ligados a eventos reais. No caso da história da chapeuzinho, por exemplo, fica óbvio que a história está ligada aos abusos de crianças que ocorriam na época; especialmente quando identificamos aspectos claramente sexuais em certas versões da história, onde a menina tira a roupa diante do lobo. Não é sem motivo que este artigo sobre a chapeuzinho (que pode ser lido aqui) se tornou simplesmente o artigo mais visualizado do "Histórias de Mistério", o artigo rende visualizações mesmo hoje, vários anos depois de eu publicá-lo. Mas, se você deseja conhecer este meu estudo sobre os contos de fadas desde o começo, deve começar por ler este artigo ainda mais antigo, onde eu inicio esta temática aqui no blog.
   As minhas atividades como escritor (das minhas próprias histórias), e tradutor, bem como meu trabalho secular (não, não vivo de literatura, infelizmente) tornam muito difícil que eu tenha foco no que quer seja. Há mil e uma histórias que eu sinto inspiração para escrever, mais mil e um textos ficcionais incríveis precisando de uma tradução para o português... não é nada fácil decidir onde trabalhar e qual ideia dar vida. Embora eu tenha ficado feliz que o melhor artigo do Histórias tenha sido um texto que eu escrevi com tanto carinho e pesquisa, a correria não me permitiu notar que o sucesso deste tipo de artigo (sobre contos folclóricos) é uma demanda que os meus leitores merecem que seja satisfeita com maior constância. Eu quero, portanto, reviver este assunto aqui no blog, assunto este muito pertinente para uma Blog que fala de literatura, história, mitologia e mistérios da mundo.
   E quando eu me deparei com o conto folclórico do Flautista de Hamelin, com o fato desta história se passar em uma cidade histórica real, a primeira coisa que senti vontade de fazer foi buscar algum caroço neste angu, por assim dizer, rsrsrs. E, talvez eu não encontrarei mais nenhum outro conto de fadas que exemplifique aquela minha tese tão bem como esta história do Flautista de Hamelin: que contos de fadas estão embasadas em eventos históricos reais.
   Mas do que se trata a história do Flautista de Hamelin? A estrutura da narrativa é bem simples e eu posso resumi-la em poucas frases:

Havia uma praga de ratos na cidade de Hamelin. Desesperados, os moradores da cidade contrataram um "exterminador" de ratos inusitado: um flautista que hipnotiza ratos. O flautista começou a tocar uma música estranha pelas ruas da cidade, e todos os ratos não resistiram em seguir o flautista para onde quer que fosse. O flautista, então, dá cabo dos ratos mandando eles se afogarem em algum rio, lago, se jogarem do abismo (aqui as versões variam). Mas os moradores ficaram tão felizes com o extermínios dos ratos que resolveram dar calote no flautista. Para se vingar, o flautista retorna a cidade, e toca outra música, desta vez para encantar as crianças. Todas as crianças da cidades abandonam suas famílias e seguem o flautista até a floresta. Dentro da floresta o flautista abre um portal para um mundo mágico, cheio de alegria, para onde ele leva as crianças, que nunca mais retornam.

  "Ahahah, então você acha que esta história, cheia de magia inocente é real, deve estar louco!" Eu imagino que você possa pensar isso a esta altura de sua leitura. Mas esta história me chamou a atenção pelo seguinte: Se passa em uma cidade real, a pequena Hamelin, na Alemanha. E... pasme agora.. possui DATA... ano, mês e dia. O dia em que o Flautista levou as crianças da cidade de Hamelin foi o dia 26 de Junho de 1284. Normalmente, contos de fadas não possuem dados precisos como esses; são desnecessários em uma ficção, bastaria dizer que se passou a muito tempo atrás em um lugar qualquer, não haveria porque manter a data e o local, se não fosse com o objetivo de REGISTRO.
  Uma antiga igreja local da cidade de Hamelin possuía um vitral onde se registrava este evento perturbador como se fosse um evento real. O vitral foi construído no ano de 1300, apenas 24 anos após a data da história. Esta igreja e seu vitral não foram preservados, porém, cópias feitas por artistas sérios da época, sobreviveram. 

 
A cópia mais antiga do vitral da Market Church, pequena igreja da cidade de Hamelin. - by Augustin von Moersperg

   O mais importante documento histórico deste evento é o manuscrito de Lueneburg (cerca de 1440 a.d.). Neste documento lemos o seguinte, em alemão arcaico:

ANNO 1284 AM DAGE JOHANNIS ET PAULI WAR DER 26. JUNI - DORCH EINEN PIPER MIT ALLERLEY FARVE BEKLEDET GEWESEN CXXX KINDER VERLEDET BINNEN HAMELN GEBOREN - TO CALVARIE BI DEN KOPPEN VERLOREN.
Tradução:
[Em 1284, No dia de {SÃO} João e {São} Paulo - na data de 26 DE JUNHO - Um flautista com roupas coloridas levou 130 crianças nascidas em Hamelin - Ao chegarem no calvário das colinas de Koppen, desapareceram.]

  Quer mais? E se eu te dissesse que até endereço esta história tem? A rua onde se alega que as crianças hipnotizadas passaram é chamada de Bungelosenstrasse ["Rua sem Tambor"], em Hamelin. Há uma regra que proibe que se toque qualquer instrumento nesta rua, dança também não é permitida. Este evento misterioso de desaparecimento, seja ele qual tenha sido, feriu realmente esta cidade, e nunca mais desejaram ver alguém dançando ou tocando novamente nesta rua! Como poderia uma história puramente fictícia ferir os moradores de tal modo?
  Portanto, a história do Flautista de Hamelin, como era contada antes de ser compilada pelos irmãos Grimm, parecia mais um registro do que um conto folclórico. Deixando inclusive, "cicatrizes" memoriais permanentes até hoje na cidade de Hamelin.

   Mas se há tantos registros, o que pode ser verdade nessa história?

As hipóteses

   Logo no início da história vemos um elemento que preocupava muito as pessoas de época: a praga de ratos; o conto poderia ser um eufemismo mais suave para alguma epidemia de peste bubônica que poderia ter ceifado a vida de 130 crianças. Porém, é estranho que apenas crianças tenham sido registradas como vítimas fatais. Outro fator que não ajuda nessa teoria é que a peste bubônica só assolaria a Europa cem anos depois. Também não há evidência de que esse flautista tenha encantado primeiro a ratos. Este parece ser um elemento ficcional inserido na história, para tentar explicar o sequestro massivo das crianças.
   Freudianos certamente teorizarão que esta história pode ter sido a trágica história de vítimas de um psicopata com distúrbios sexuais e sua típica habilidade de seduzir crianças. Esta hipótese é plausível. Só não me parece possível que um assassino tenha conseguido levar 130 crianças para fora da cidade em um único dia; sem nenhuma reação por parte dos pais. Se foi realmente isto que aconteceu, este psicopata matou essas crianças ao longo de muitos dias. Mas a data do evento, um único dia, parece ser algo importante para quem registrou, o que enfraquece a hipótese do psicopata.
  Alguns podem ter notado que a inscrição de Lueneburg menciona claramente o termo "calvário," que remete ao local de execução de Jesus Cristo. Isto dá peso à hipótese de que as crianças foram assassinadas de uma forma sistemática. Mas não podemos afirmar com certeza porque "calvário" também remete à subida que Jesus fez antes de morrer; qualquer colina íngreme e difícil também pode ser chamada de calvário.
  Já Giorgio Tsoukalos, o cara do "Alienígenas do Passado", certamente levantaria a hipótese de abdução em massa de crianças por alienígenas. É interessante que foi importante para os cidadãos de Hamelin tomarem nota de que o flautista era uma pessoa estranha, vestindo roupas estranhas. Como é muito comum com a hipótese dos "Deuses Astronautas", tudo pode ser racionalizado, desde o flautista estranho, até seu equipamento de hipnotismo. Assim é uma teoria que se encaixa, embora não seja ainda minha teoria preferida.

A melhor e mais triste das hipóteses...

  A parte mais bonita do conto do Flautista de Hamelin é, certamente, seu final. Onde o flautista mágico abre um portal para um mundo mágico e alegre onde as crianças brincariam para sempre. Analisando esta história segundo a tese dela ser uma reconstrução eventos históricos reais, este belo final é também a parte que mais perturba. Sabendo que um conto folclórico pode ser uma recriação de um real evento traumático para um povo, finais felizes são sempre a parte mais ficcional do conto; o toque de imaginação que dava esperança para os pais dessas crianças desaparecidas, de que, onde quer que as crianças estivessem, talvez,
estivessem em um lugar sem sofrimento onde podiam ser felizes.
   Visto que a cidade de Hamelin era, provavelmente, ainda assolada pelas dificuldades climáticas ocorridas algumas décadas atrás, crianças poderiam ter sido escolhidas entre as famílias e depois contratariam, no caso, algum artista, que prometeria para as crianças levá-las para uma excursão na floresta com o intuito de, na verdade, perdê-las propositadamente, abandonando-as, ou ainda vendê-las como escravas. 

Um escravo branco europeu (circassiano) ao lado de seu mercador africano. Em um contrassenso do que aprendemos na escola. Este pode ter sido o verdadeiro e triste fim das crianças de Hamelin.
 
  A pele clara já era, nesta época, um símbolo de status; principalmente entre os povo árabes e norte-africanos. Há fundamento histórico suficiente para afirmar que pessoas brancas eram escravizadas por povos norte-africanos nesta época, simplesmente por conta de sua genética germânica. Centro e trinta crianças loiras seria um lote precioso pelo qual muitos norte-africanos pagariam muito. Mas não me parece muito plausível que algum mouro, de roupas árabes engraçadas, tivesse simplesmente entrado em Hamelin e persuadido as crianças a irem com ele, sem que os pais percebessem.
  Isso abre duas hipóteses: o rapto à força dessas crianças ou a venda dessas crianças pelas próprias famílias famintas da cidade.
Para mim é a hipótese mais macabra e triste de todas. Talvez tenha sido essa a dor emocional tão forte que levou-os a criar um eufemismo em forma de conto folclórico com final feliz. A dor que levou a cidade a criar este conto e a proibir dança e música em Bungelosenstrasse poderia muito bem ser a dor da vergonha dos moradores da cidade, em ter feito tal crueldade traiçoeira com seus próprios filhos. Senão, seria suficiente a dor de ter seus filhos tirados à força de seus braços. Enfim, esta é a hipótese que eu acredito que mais se encaixa. Porque eu escolhi esta como a melhor hipótese? Nas principais versões do conto do Flautista de Hamelin, um menino coxo não consegue ir com as crianças, ou então uma criança cega, ou surda; algumas vezes as três. Em uma hipótese de escravidão, isso confere pois os mercadores não iriam levar crianças com defeitos. A lembrança de terem ficado apenas crianças com defeitos físicos é certamente um ponto importante. 
   Assim, talvez a criação do conto serviu para diminuir a vergonha e culpa dos moradores de Hamelin ou então a dor de ter seus filhos raptados. 
   

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