Revelações e O Paradoxo de Daren

Revelações



“Pera aí, Doutor Adler! Acho que isso já é ilógico demais para eu aceitar. O senhor me viu enquanto eu dormia. Eu não fui para lugar nenhum, só sonhei com o passado.”

“Era isso que eu pensava e concordo que seja um paradoxo. Mas eu jamais afirmo algo sem que eu tenha encontrado fundamentos para o que eu digo. Eu sempre começo pelos fundamentos, meu caro Daren.”

“Fundamentos. Que fundamentos o senhor encontrou para ousar contradizer conceitos milenares da física?”

"Pois bem. Antes de lavar seu pijama aquele dia, pedi para a empregada coletar uma amostra do seu suor.


“Credo; continue.”

“Eu analisei a amostra nos mesmos instrumentos que você despedaçou hoje. Não era suor, Daren, era água.”

“Água?”

“De chuva.”
“Você comentou que em seu último sonho estava garoando.”

“Não prova nada, doutor. É um absurdo até para essa conversa que eu vá para o passado. Eu não sai do seu divã aquela noite; estive bem aqui.”
“E a sua empregada vive mexendo com água, deve ter contaminado a amostra.”

“Eu disse que tinha fundamentos, Daren, e não um mero indício isolado. Quanto você calça?”

“Quarenta e dois. Mas porque a pergunta?”

“A meio quilômetro da clínica descobriram um sítio arqueológico onde estava preservado uma libélula gigante completa, do período carbonífero, em rocha que era lama a muito milhões de anos atrás”. Você comentou que percorreu meio quilômetro em seu sonho.

Mostrei-lhe a seguinte manchete:



“Em Sorocaba foi descoberto um importante fóssil completo de um Meganeura, uma libélula gigante do período Carbonífero.”



“Isso não é novidade. Eu sonhei com o Carbonífero, tipo, como realmente ocorreu; já aceitei isso. O que eu não aceito por falta de lógica é que eu estava lá, porque eu estava aqui, com o senhor como testemunha.”

“Tem mais, Daren: eu fui até sítio arqueológico e escavei duas pegadas humanas na mesma camada geológica da Meganeura; ...”
“...é 42, Daren e não estava lá antes do seu sonho, se estivesse, os arqueólogos achariam e ficariam estupefatos; pois nenhuma pegada humana poderia estar impressa na lama do Carbonífero, e de sapatos. Não poderia, até você ter feito uma pequena viajem astral de 300 milhões de anos no passado.”

Mostrei-lhe o artefato que retirei do sítio, o pedaço de rocha com as pegadas humanas. Daren experimentou “calçar” as pegadas. Daren teve mais um ataque de histeria. Dei-lhe um tempo para que se acalmasse. Embora ele tentasse manter as aparências, ele ainda não estava psicologicamente recuperado, sequer daquela demonstração inicial, no porão, com luz elemental.”

Após o almoço, o esforçado Daren, sabendo que não poderia ignorar o perigo que passa quando sonha, no caso de eu estar certo, voltou para a nossa conversa, por iniciativa própria.


“Como você retirou as impressões de pegadas da rocha? Com magia?”

“Martelo e talhadeira. … e paciência.”
“Mas há muitos princípios mágicos que eu poderia ter usado: telecinesia, pirocinesia… A magia em teoria é muito diversificada, mas a mente humana é selvagem, quer dizer, não podemos domar nossa mente para fazermos tudo o que quisermos, podemos apenas aproveitar o que nossa mente está disposta a fazer. Por outro lado, quanto mais se busca disciplina mental e estudo, mais a nossa mente se dispõe a nós. Está tentando entender, Daren?”

“Você não consegue praticar toda a magia que aprende, Doutor?”

“Nossa mente somos nós: nossos medos, princípios éticos, desejos… Nossa própria personalidade limita nossa força de vontade.

“Você falou… princípios éticos?

“A resposta a essa pergunta seria mais uma revelação assustadora para você.”

“Continue, eu preciso dessas revelações.”

“A bondade é uma fraqueza para a magia. Possuir princípios é bom e construtivo, mas… como tudo na vida, o caminho desonesto e sujo é um atalho para o poder. Magos corrompidos buscam poder por caminhos sórdidos, atalhos desonestos e alianças sombrias. Sempre serão muito mais poderosos porque não se limitam a princípios morais.”
 “Ao contrário das fascinantes histórias da imaginação humana, em uma luta entre o bem e o mal, o bem já começa com uma grave desvantagem.”
“Hora ou outra você poderá precisar ter contato com outros praticantes de magia; e deve saber que a maioria deles são malignos e muito mais poderosos; tente não fazer inimigos.”

“Porque magos benignos não se contatam? Poderiam formar uma espécie de comunidade.”

“Sua inocência é um alívio, Daren, mas também é ingênua. Magos com princípios morais, como eu, são poucos e fracos. São considerados clandestinos no conhecimento arcano e são perseguidos pelos outros magos; por isso, ficamos escondidos.”
“Você já ouviu muito sobre isso. Claramente esse assunto te faz mal. Ainda faz mal para mim, eu fico imaginando o que conversar sobre isso deve fazer com você. Mas você ainda tem muito para saber. Descanse, distraia-se. Mas não leia nada da minha biblioteca, não há nada lá que promoveria o seu descanso, se é que me entende, combinado?”

"Combinado. Você tem vídeo-game?"

"Não. Mas tem sudoku. E tem caneta na escrivaninha."


 

O Paradoxo de Daren


Conforme a tarde caía, o perigo que Daren corre quando dorme nos obrigou a deixar as distrações de lado novamente e continuarmos nossa importante conversa.

“Você não pode voltar para o Carbonífero, Daren. Era uma época perigosa, cheia de aranhas gigantes e centopeias enormes. Se você deixou a marca de seus pés lá, certamente deixarão as marcas de suas quelíceras gigantes venenosas em você.”
“Além disso, você acordou com o som de um relâmpago, não é? No Carbonífero um relâmpago pode causar uma explosão na floresta, pela combustão do oxigênio. A manchete diz que foi graças a esse tipo de explosão que a lama endureceu rápido e preservou a libélula. Se você não tivesse acordado com o som do relâmpago, teria sido explodido, e com certeza, não voltaria somente molhado, se é que voltaria. O Carbonífero não fará bem a você, Daren.”

“Nem precisa falar.”

“Para pensarmos em algum tipo de controle da sua habilidade precisamos compreender o paradoxo de você ter ido ao passado sem que eu notasse sua ausência.”

“Eu estive pensando que eu poderia ter ido e depois voltado para uma fração de segundo depois de ter ido.”

“O problema dessa teoria é que as manifestações físicas do ambiente do Carbonífero, no seu corpo, foram surgindo conforme você foi sonhando. Se você sumisse e voltasse um milésimo de tempo depois essas manifestações apareceriam de repente.”

“Como eu poderia ter estado no passado enquanto estava aqui, Doutor? Isso é impensável!”

“Após uma pesquisa nos meus livros arcanos, encontrei relatos de um fenômeno capaz de explicar, só remotamente, a sua habilidade. É um fenômeno chamado Bi-locação.”
“Consiste em existir em dois lugares ao mesmo tempo. Sua vontade, seu desejo de olhar para o passado é tanto que, em um estado cerebral de baixo processamento de informações, o sono, você cria você mesmo em outra época. Sem precisar se transportar para lá.”
“Einstein foi muito um sábio em afirmar que a ‘distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão’. Ciência te é mais familiar, não é, Daren? Esta frase de Einstein pode passar a ideia de que passado, presente e futuro acontecem simultaneamente. Então porque você não poderia ser capaz de acontecer simultaneamente em dois períodos, Daren?”

“Quando misturamos ciência e magia as coisas complicam ainda mais.”

“E porque não poderiam ser misturadas? Ambos estão interessados em fenômenos. Não rejeite a sua ciência conforme for tomando conhecimento do seu poder arcano. Esforce-se para que ambos se complementem entre si.”

“Já aconteceu antes? Alguém já teve esse poder?”

“Há relatos de Bi-locadores sim, mas seu alcance é apenas tridimensional. Sabe? Estar aqui e ali, mas apenas no presente. E mesmo esses são absurdamente raros. Nunca vi alguém alcançar a quarta dimensão, o tempo, como é o seu caso.”
“Porém, no caso dos Bi-locadores convencionais, eles controlam ambos os corpos. Já você é capaz de controlar apenas um dos seus corpos.”

“E o quê acontece com o ‘eu’ que eu criei, depois que eu volto para o meu ‘eu’ original?”

“Prefiro acreditar que ele simplesmente se desmaterializa. Senão eu encontraria um esqueleto humano fossilizado naquele sítio. Mas… eu não tenho todas as respostas, Daren, não sei que fim deu o seu corpo de outra era.”

“Minha mente está tão revirada quanto meu estômago, doutor. O senhor me deixou em choque uma, duas, três vezes. Quero dizer, essas revelações estão ficando cada vez piores e cada vez mais assustadoras. Quero ir para casa, dormir no meu quarto.”

“Não é mais seguro que você durma sozinho Daren. Você deve ficar aqui, em observação constante. Até poder se cuidar sozinho com sua habilidade. As sessões agora serão diárias. Não se preocupe com o preço, você só pagará duas sessões por semana, como antes.”

“Então, meu poder surgiu da minha incapacidade de aceitar o passado, quando passei a ter um desejo forte de olhar para o passado.”

“Provavelmente. E você só precisou desejar olhar para a época anterior ao seu divórcio, para ir até a época anterior aos dinossauros. Percebe que a distância de sua viagem não está sobre o controle do seu consciente, Daren? É o seu inconsciente que controla; influenciado pelo objetos à sua volta, até artefatos arqueológicos, mesmo sem você saber de sua existência; ou seja podem até mesmo não ter sido descobertos ainda, bastariam estar por perto.”

“Então eu devo ler o livro de Geologia para parar com o pesadelo pré-histórico.”

“Sugiro queimarmos o seu livro de geologia. Eliminar o objeto é, certamente, a forma mais segura de evitarmos que você reencarne no Carbonífero.”


<< Parte Anterior                                                    Próxima Parte >>

Nenhum comentário:

Fernando Vrech. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.