Peabiru - Uma Estrada na Floresta.

  O nosso dever era continuar, pois ainda nos restava uma faísca que outrora fora um fogo que consumia nossos medos, só restando a bravura, cega mas corajosa.

  Daren, você está enfeitando muito, apenas me conte a sua história, talvez não tenhamos tempo pra… 

  Seja paciente, meu caro doutor, eu contarei a minha história com a decoração que ela merece. É a minha última história na vida; deveria estar escrevendo isso e não reclamando! 

  Na verdade, eu escrevo cada detalhe, tudo o que você diz é importante e é escrito para a sua ficha clínica. Eu apenas escrevo depois, de memória. 

  Memória boa! Pois bem, naquele momento pensamos seriamente no que fazer: podíamos voltar até a aldeia, fazer uma busca do Kaíque, devolver Taynara para seus pais e curar o Jararaca. Mas isso parecia muito com desistir, afinal, Jacimar conhecia um atalho misterioso. Esse atalho era a nossa única chance de alcançar o que Jacimar pensava ser um abaçaí, um demônio, que ela sabia onde ficava, ou morava. Na verdade, Jacimar nunca contou direito essa história; mas a aparição de Ahura-Mazda, dessa época, como um caipora, nas redondezas da aldeia de Jacimar parecia indicar que Jacimar nos levararia ao caminho certo. Jacimar sabe onde o abaçaí está e sempre pareceu ter certeza de que a caravana do Capitão Teodoro e o “Homem do Pelourinho” estavam envolvidos com o abaçaí. Enfim, não podíamos perder mais tempo, se quiséssemos ter sucesso; não podíamos voltar, a menos que desistíssemos.
  Feridos como estávamos e com a equipe incompleta essa missão já me pareceu fadada ao fracasso. Eu propus votar. Mas assim que Jacimar traduziu isso para os agora três guerreiros houve um falatório em tupi imediato. 
  Ubiratã ficou bravo comigo e começou a me dar sermão, gesticulando com as mãos. Jararaca, ainda deitado, olhou para os lados decepcionado comigo. E Taynara suplicava. 
  Pelo comportamento deles, eu entendia o que diziam, embora não falasse Tupi. Mas Jacimar tornou as declarações deles mais claras:
   “Ubiratã fala que ir embora é desrespeitar o sacrifício de Iuna e Kaíque; e pediu para você nunca mais falar de ir embora. Jararaca fala que voltar é tão feio quanto cobra-cega que foge por mato e Taynara disse que ficou com muito medo mas quer outra chance de mostrar que é forte.”  
  Mesmo sendo inocência da parte deles, eles escolheram seguir o coração deles; é isso que os inocentes fazem. Me dei conta que não havia nada de errado com essa inocência. Assim mesmo devem ser os heróis da vida real: nada de super-poderes, armaduras impenetráveis...assim é fácil ter coragem. Pessoas comuns se tornam heróis quando seguem seu coração; quando possuem senso de dever. A horripilância do inimigo é de tão pouca importância que nem é considerada! O importante é lutar.
   Eu, um condenado que sou, não tinha nada a perder. Então eu respeitei a decisão dos guerreiros. Socorremos nossas feridas e respiramos fundo outra vez. 
   Taynara cortou folhas de bananeira e usou como bandagem para a perna de Jacimar, amarrando-as com cipó. Fez o mesmo com o Jararaca, depois de colocar as tripas dele para dentro; pelo visto, ele teve a sorte de apenas ter sua barriga rasgada e não suas entranhas comidas.
   Não podíamos acampar ali depois do que vimos, tínhamos que encontrar um local seguro. Havia algum lugar seguro naquela floresta? A floresta inteira parecia ser perigosa.
   Algumas horas de caminhada e Jacimar grita:
“Atalho, atalho!”
  Deveras, era uma estrada! Criada plantando-se grama para evitar mato alto no decorrer dela. Ora! Era distante temporalmente mas estávamos ainda em Sorocaba! É claro! O atalho de Jacimar era não menos do que o Peabiru! O caminho que ligava os Tupis até os Incas nos Andes! Já havia lido sido isso ante... ou lerei isso no futuro, quando eu nascer, sei lá.
   Na época em que a velocidade dos cavalos, em trote pelo mato, era a velocidade máxima, o Peabiru, na verdade, era bem deserto. Os portugueses eram proibidos de usarem a estrada, porque a coroa portuguesa não queria o despovoamento da costa.
  Passamos a percorrer, então o tal do atalho de Jacimar: o Peabiru. Era uma estrada a céu aberto, claro; mas, naquele trecho, parecia um túnel. Com a copa das árvores permitindo apenas pequenas frestas de luz. O sol já estava fraco. A noite, tão querida pela nossa eterna amiga Iuna, aproximava-se. Se não encontrássemos um abrigo seguro, não dormiríamos, é claro.
  A estrada parecia segura mas, vez ou outra, a atenta Jacimar acertava uma codorna assassina ou uma capivara sanguinolenta. Os animais estavam loucos, sem exceção. Já Taynara colhia materiais que, para mim, pareciam aleatórios e nada comestíveis; como um ninho de passarinho e mamonas.
  Chegamos até uma área que costumava ser abrigo para os viajantes. Uma estrada feita para se seguir a pé tinha que ter abrigo de tempos em tempos. Repousamos nossas coisas no chão e nos preparamos para descansar na área.
  Eu quis perguntar para Jacimar onde ela estava nos levando mas fiquei com receio de ofendê-la ao mostrar desconfiança.
  Ubiratã sentou-se no chão, parecia ainda bastante triste e, pelo visto, se sentia também culpado por não ter conseguido proteger seu amigo Kaíque. Jararaca, muito resistente ao sério ferimento, deitou-se no chão e pareceu ter morrido, quando fomos checar e descobrir que ele estava apenas tirando um cochilo. 
   Antes que alguém começasse algum diálogo, ouvimos três sons de impacto entre rochas e uma luz passou a iluminar aquele entardecer. Taynara acendeu uma fogueira, e o ninho de passarinho pegou fogo tão fácil, que nem notamos o rápido procedimento da menina.
  Depois de buscar nosso olhar de aprovação a menina sentou-se ao lado de Ubiratã e pareceu consolá-lo. Taynara, evidentemente, estava com seu orgulho ferido por ter paralisado diante do ataque das onças; ela não ajudou a matar as onças, e não esperávamos mesmo que a jovem lutasse, é apenas uma menina. Mas, sem dúvida, ela esperava mais de si mesma. Taynara e Ubiratã eram duas almas feridas que tentavam se consolar.
   Assamos os animais que Jacimar matou pelo caminho… eu temi comer a carne por pensar que estivesse infectada; passei fome enquanto os índios banqueteavam.
  De manhã nós seguimos pelo Peabiru por algumas horas até encontrarmos novamente rastros de pessoas que seguiam a pé. Havia mato amassado na lateral direita da estrada indígena e, na outra lateral, um cipó cortado com precisão que só um facão poderia. Foram “caraíbas” que passaram por ali, mas atravessaram o Peabiru apenas, não seguiram por ele.
   Eu quis seguir os rastros mas Jacimar, a nossa guia me impedia, dizendo:
“Vai seguir eles pelo mesmo caminho? E depois, caburé? Vai aparecer e dizer ‘oi’ ?”
  Jacimar insistiu que continuássemos pelo Peabiru. Resolvi confiar nela, afinal ela nos levou até onde a caravana de Teodoro, evidentemente, passou.
  A estrada indígena mudava de configuração no seu decorrer. Antes era aberta, larga como uma rua; mas foi ficando mais estreita, mais precária. Agora só podíamos passar aos pares.
  A floresta também foi mudando. Foi ficando mais sufocante, mais quente. Havia um odor de maldade no ar. Já sentiu o odor fétido da maldade? Além disso, senti também um efeito estonteante, como se a floresta se debruçasse perversa sobre mim.
   Eu olhava para os guerreiros e via Ubiratã desconfiado, como se suspeitasse que algo não estava natural.
   O cambaleante Jararaca, que havia pego um pedaço pau para se apoiar, balbuciava enquanto caminhava e olhava, hora para lá, hora para cá, hora para cima. Com quem Jararaca estava conversando? Com as cobras?
  Taynara, apenas uma criança, caminhava ao meu lado e me olhava como se estivesse prestes a chorar; uma menina com medo do escuro, dos monstros que habitam a escuridão… 
   Ora, porque a escuridão seria algo medonho, até para adultos, senão por impedir que enxerguemos o que espreita a nossa volta? Enquanto eu pensava nisso, Taynara deixava escapar um discreto choro contido. 
   Taynara não precisava da ausência de luz para chorar de medo; bastava não poder compreender o que se passava à sua volta. A escuridão existia sim, mesmo com o sol ao meio dia! 



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