Histórias Curtas III - O Sumiço do bebê.

   Nós podemos apreciar as histórias do detetive Tanelli e de seu professor Akshan somente porque a filha do detetive, Cristina Tanelli, os escreve em seu diário e eu sou a única pessoa a quem ela deu a permissão para lê-lo e posso postar aqui somente o que ela me permite. Ela me odiaria pra sempre se eu postasse aqui sobre os namoradinhos dela... ops!
    Enfim, a maioria das histórias sobre o detetive Tanelli está na voz narrativa de sua filha mas, muitas vezes, essa voz narrativa muda por que ela transcreve relatos dos cidadãos de Tenebra, partes do diário de outras pessoas, notícias jornalísticas da imprensa de Tenebra ou, simplesmente, ela transcreve o relatório de um dos casos do seu Pai. Neste último caso, a voz de narração é do próprio detetive, que também descreve em minúcias seus casos, mas de forma menos filosófica e mais sentimental que a sua prodigiosa filha. É o que acontece no caso do Sumiço do Bebê. A data do relatório revela que esse caso aconteceu somente semanas depois dos eventos contados no livro "A Descendência de Jambres".
    A personagem chamada doutor Navalha é o jovem médico legista contratado para trabalhar na agência de investigação. Normalmente, seu trabalho é de legista, mas ele também é um médico muito atencioso.
    Notem que o detetive está mudado, menos cético, porque ele passou recentemente por eventos sombrios que desafiaram sua mente científica. Mas como veremos nessa história, não seria a última vez que o detetive passa por eventos sombrios...

 
2 de setembro de 2010. Relatório do caso #003 O Bebê dos Igreja.






    Hoje de manhã uma mãe desesperada entra pela porta da agência.
    — O senhor precisa achar o meu bebezinho, senhor Tanelli! Por favor, sei que o senhor foi um excelente detetive em São Paulo e é muito mais esforçado que os policiais preguiçosos de Tenebra. Então o senhor precisa me ajudar, me ajuda! — Ela virou os olhos e sucumbiu ao desespero.
    Chamei o doutor Navalha, que ouviu o coração dela com o seu estetoscópio e verificou que ela havia apenas desmaiado. Dado a aparente urgência do caso, eu sugeri que o doutor usasse alguma substância, como o éter, para que ela pudesse me relatar sem perda de tempo o que aconteceu ao bebê dela.
 — O senhor tem um conhecimento simplesmente medieval sobre a ciência da medicina, senhor Tanelli. — respondeu o, às vezes, irritantemente sincero doutor Navalha.
    O doutor ajeitou confortavelmente a jovem senhora no chão do escritório, ergueu as pernas dela em cima de uma cadeira e me pediu para que eu abrisse totalmente a janela do escritório para entrar oxigênio.
    Quarenta segundos depois que eu segui as instruções do doutor, a mulher acordou. Pedimos que ela se sentasse e demos água para ela. Então eu disse a ela:
    — Sei que a senhora está preocupada com o seu filhinho...
   — É o meu bebezinho, detetive! — Interrompe a exasperada mulher.
   — Sei, mas eu te prometo que, o que quer te tenha acontecido, temos competência para resolver a situação; a senhora foi até as pessoas certas.
   — Hoje cedo, quando eu... — A mulher começa a chorar em desespero.
    O Navalha traz chá de camomila para a senhora e, aos poucos, embora não tenhamos conseguido acalmá-la ela pôde, ao menos, nos contar o problema.
   — Eu ia dar papinha para o Juca e não o encontrei no berço, e depois procurei na casa toda e depois na fazenda inteira, o meu marido nem chegou do trabalho ainda e ele vai morrer do coração quando descobri que eu... — Ela conseguiu apenas contar o suficiente para desabar em pranto novamente.
    — Tudo deixa indício senhora. E eu sou especialista em indícios. Eu te prometo que descobriremos onde está o seu bebê. Ele sumiu a pouco mais de uma hora apenas. — Eu sabia da possibilidade do bebê estar morto mas de modo algum eu iria insinuar isso a essa mãe desesperada.
   — Sei que esta é uma agência particular mas nos mudamos recentemente e mal sobrou dinheiro para encher as nossas barrigas.
    — A segurança de um bebezinho está em jogo. E... um bebezinho estar seguro não tem preço. Não cobrarei nada da senhora. Só peço que não divulgue que foi grátis, ok?
   — Obrigada senhor Tanelli, o senhor deve ser um anjo disfarçado!
   A Cristina, minha filha, estava na escola e o professor pegou caxumba. Assim, tive que deixar o doutor cuidando da agência e resolver o caso sem ajuda. Mas não antes de ligar para o professor, pelo menos, para dar um feedback:
   — Se o caso é na área rural de Tenebra, leve, pelo menos, um facão, filho. Por segurança. — Assim o professor me aconselhou, ele é maluco mas é extremamente precavido e preferi seguir seu conselho.
    Levei a senhora de carro para o sítio deles, o sítio Eterno Luar. O nome dela é Lisandra Igreja e o de seu marido é Jonatas Igreja. E o Juca tem 7 meses. Eles se casaram recentemente e se mudaram para Tenebra pela oportunidade gerada com a expansão do pequeno Zôo da cidade, pois Jonatas é veterinário.
   Ao chegarmos no sítio, a senhora Igreja me pediu para que eu levasse a notícia ao marido que havia chegado. Enquanto ela ficava atrás de mim, como se ela se sentisse a culpada pelo desaparecimento da criança.
    Bati na porta, fui atendido por Jonatas Igreja, que esperava que o bebê estivesse sob os cuidados de sua esposa, que havia saído para ir ao mercado ou coisa assim. Então busquei ser o mais breve, porém, o mais delicado possível para lhe dar a notícia.
   Assim que terminei de dar a dolorosa notícia, o senhor Igreja sente um baque e a senhora Igreja aparece por de traz de mim, acenando a cabeça e implorando o perdão do seu marido. O arrazoado marido a acolhe nos braços e ambos choram juntos. O senhor Jonatas simplesmente olha para mim e não precisa dizer mais nada, seu olhar me dizia: "Nos ajuda senhor Tanelli."
   Fui muito profissional e confortei os dois como pude relatando que houve vários casos de crianças danadinhas que fogem dos berços e aparecem sãos e salvos em locais inusitados, quietinhos, ocupados em matar a sua curiosidade com algum assunto desconhecido para ele.
   Mas por dentro... hã! O meu coração estava sendo moído tanto com a situação do casal quanto com as inúmeras atrocidades que esse bebezinho pode estar sofrendo, nas mãos de algum sequestrador, ou que já sofreu até sua vida curtinha ter terminado. Felizmente, esconder os sentimentos é uma habilidade minha que tem sido uma importante ferramenta no meu trabalho.
   Mas comecei logo a investigação. O casal não estava em um estado emocional que os possibilitasse serem melhor interrogados e a única pista que encontrei examinando o quartinho do bebê foi o mosquiteiro rasgado! Para levar o bebê, o sequestrador rasgou o mosquiteiro e o fez de forma que me indicou que ele estava alterado emocionalmente, era um crime passional e não tive dúvida disso!
   Sem mais naquele quarto decidi investigar a parte de fora do sítio. Atrás da casa do pequeno sítio é de terra solta. Ah a terra solta! Para um investigador isso é como um livro! E as pistas abundavam, embora não houvessem simples pegadas, como idealizado nos filmes.
   Haviam sinais de que alguém caminhou ali rastejando recentemente e o casal me garantiu que essa parte do sítio não foi circulado por eles, nos últimos dias, pois é um local inútil. Nem mesmo o cachorrinho, Gino, pois ele fica na casinha. Além dos suaves rastros disformes, um pequeno pedaço de tecido fibroso estava preso na cerca de arame.
— É da fraldinha do Juca! Alguém levou nosso filhinho pra mata!.... — Então voltaram ao seu pranto incessante enquanto eu passava pela cerca para seguir os rastros.


   Os rastros deixados pelo sequestrador eram sutis: galhinhos quebrados, uma touceira ou outra inclinada para um lado desnatural e fui seguindo.
   Após uns mil e duzentos metros mata adentro cheguei a uma clareira. Já era umas três da tarde! Nessa clareia ouvi um som que os instintos humanos produzem preocupação mas que, nesse caso, era o maior alívio que um humano poderia ter: o choro de uma criança. Tetricamente ouvido como que de dentro da terra!
   Havia uma toca nessa clareira, a única coisa lógica é que a criança estivesse lá dentro. Cheguei até a boca da toca e mirei a lanterna dentro da toca. O bebê estava lá dentro. Estava com escoriações de baixa gravidade, sujinho e despenteado. Podia vê-lo à partir da cabeça e falei carinhosamente com ele. Ele olhou para cima com a carinha chorosa e quando ele me viu tentando sossegá-lo, entendeu que a ajuda havia chegado e abriu um sorrisinho! Esse sorriso revelou também o seu bom estado de saúde geral. Talvez esse aventureirozinho foi longe demais em sua fuga e ficou preso dentro da toca.
   Nesse momento eu ouvi outro som. Um outro som que também alarma os instintos.
   Ouvi rosnados, de quatro ou cinco canídeos que foram, aos poucos, se revelando à partir da mata e se aproximando ameaçadoramente a mim. Era uma família de lobos. Sim lo-bos e não o endêmico guará, mas lobos do norte, os chamados cinzentos. Na verdade, enquanto a adrenalina se encarregava de fazer todo aquele momento assustador passar lentamente, percebi que eram cães da raça Husky, cinco cães. E a cauda deles estava empoeirada com a mesma terra do quintal da Fazenda Eterno Luar.
   O facão que o professor me incentivou a trazer tinha ficado no carro, mas eu teria chances verdadeiras com o meu revólver, eles não iriam permitir que eu resgatasse o... Juquinha de dentro da própria toca deles sem luta. No momento, tive que ceder às ameaças dos cães e fui me retirando da clareira. Mesmo sem fazer movimentos bruscos levei uma mordida na perna de um dos sarnentos desgraçados!
   O bebê estava muito menos em perigo do que eu pensava e os cães não pareciam ter a intenção de matar porque já poderiam ter feito isso e não fizeram. Talvez até pensavam estar protegendo o bebê, adotando-o. Já foi estudado cientificamente casos de crianças que até mesmo crescem em uma família de cães. Mas não esse bebê, ele tem pais humanos que estão preocupados, certo?
  Voltei para o sítio e expliquei a situação. Eles quiseram, desesperadamente, ir até a toca mas eu os segurei alertando o perigo que cinco cães podem oferecer a nós três, desarmados. Expliquei que os cães não parecem ter a intenção de fazer mal ao bebê e que iria correndo para a agência para pegar o revólver e assim, poderia vencer os Huskys.
   Quando falei Husky o marido se surpreendeu:
   — O senhor disse Husky? O nosso cachorrinho é Husky. Ele apareceu machucadinho em nosso sítio e decidimos ajudá-lo e talvez ficar com ele. Mas pode ser parente desses Huskys.
   Então o filhote deles pode ser da mesma família dos cães. Achei isso muito estranho e liguei o carro para pegar o revólver com ainda mais urgência. E foi enquanto eu dirigia que a minha mente começou a traçar uma visão mais ampla do ocorrido. Toda a história macabra estava sendo revelada em minha mente.
   Mais uma vez essa cidade lúgubre parece criar vida e passar em mim um arrepio à partir dos calcanhares até a nuca! Esses cães demonstram, não apenas personalidade e senso humanos mas se mostram muito vingativos. Vai muito além do que a ciência explica sobre a mente canina mas, para mim, essa conclusão estranha era a única coisa que fazia sentido. O professor tem tentado me ajudar a confiar em minhas deduções investigativas, mesmo que essas conclusões desafiem a ciência. Aí eu tracei um plano, dei meia volta e retornei ao sítio.
   Peguei o Gino, era mesmo um filhote de Husky. Adentrei novamente na mata enquanto o casal esperava confiante que esse plano desse certo. Eu iria fazer uma troca, negociar com os sequestradores. Desta vez, eu trouxe o facão e poderia degolar aquele filhote caso os cães não permitissem que eu resgatasse o Juquinha; tenho certeza que o cães entenderão o recado. Esses cães querem bancar os seres humanos, não é? Então vou tratá-los como meliantes!




   Com o facão na mão e o Gino na outra eu voltei até a clareira. Não era noite ainda, mas o céu estava pesado de nuvens escuras avisando chuva iminente. Dentro da mata já estava bem escuro e, embora fosse ainda quatro da tarde, essa combinação de hora e clima tornou o ambiente muito parecido com uma noite de lua cheia, com a diferença que a tonalidade do ambiente não era o azul da lua e sim como a sépia de fotografias antigas.
   Os cães rosnantes perceberam o recado e foram se afastando enquanto eu chegava até a toca. Vitorioso, olhei de torto para o cães mas, quando me virei para olhar dentro da toca, a fêmea alfa estava lá dentro guarnecendo o pequeno prisioneiro deles. Quando a fêmea percebeu que eu estava ameaçando seu filhote se enfureceu mas, ao invés de me atacar e sair para fora ela olhou para o bebê e pareceu maquinar algo sinistro.
   Enquanto o bebê chorava aquela verdadeira cadela passou a sufocá-lo cobrindo a boca, a chupeta e o nariz do bebê com um beijo nada maternal. O choro do Juquinha ecoava dentro da boca daquele animal que, francamente, cheguei a cogitar estar possuído.
   Vou dar uma lição nessa cadela vagabunda!" — pensei já possuído por um impulso primitivo. Entrei na toca e, rastejando com o Gino na mão, olhava para a fêmea e ela me fitava com os olhos. Seus olhos demonstravam, para um investigador treinado como eu, sentimentos e pensamentos humanos. O que se passava na cabeça daqueles cães não era o que se passa na cabeça de um cão comum. Eram sentientes, podiam planejar o futuro e tinham noção de si mesmos no espaço, característica que a ciência credita apenas a humanos. Mas também não eram humanos, tinham uma inteligência desumana!
   A fêmea também não suportou a fúria que eu estar carregando o filhote dela causava nela. Ela deixou o bebê e seguiu ao meu encontro para me atacar. Ouvi o Juquinha puxar um fôlego longo, de quem quase morreu por falta de ar.
   Já eu atraía a fêmea para fora da toca e logo após não permitiria mais que nenhum cão entrasse e ameaçasse novamente a criança. Os outros cães latiam furiosos e a barganha inocente em minhas mãos, sem entender o que estava acontecendo, lambia meu rosto.
   Assim que eu saí a fêmea avançou furiosamente para cima de mim e eu caí de costas. A fêmea ficou em cima de mim rosnando e mostrando os caninos fétidos dela. Enfiei o facão pela goela dela e com a morte de sua rainha os outros cães não pensaram duas vezes em me atacar.
   Me posicionei bem na boca da toca para proteger o bebê, enquanto os cães me mordiam e me rasgavam as roupas. Se eu caísse novamente, eu morreria como só mais uma presa indefesa de um grupo de cães famintos. Sábio professor! Eu não tinha dentes e nem garras mas tinha um bom conselheiro, distribui facadas bem dadas. Logo, os três cães ficaram impossibilitados de lutar.
   Mas surgiu das sombras o maior deles. O alfa, um Husky preto enorme! Pulou em mim com a força de um leão! O impacto desprendeu o Gino da minha mão e me levou a cair metros para trás. Seus dentes cravados em meu ombro e meu facão traspassando-o até a lâmina aparecer em suas costas toda melada de sangue.
   Voltei para a toca, resgatei o bebê e brinquei de novo com ele dizendo:
   — Viu Juquinha! O titio venceu todos os monstros e salvou o nenê!
   Aí o Juquinha, talvez habituado a alguma brincadeira da família, tirou a chupetinha e pronunciou, desanimadamente:
   — Assô u nenê! — ainda riu, embora insípido, como se não tivesse gostado nada do último esconde-esconde que sofrera.
   Meu pagamento foi ter tido aquele momento com o nenê, que agora olhava pra mim como se eu fosse seu primeiro super-herói.
   No final, voltei com o Juca e o Gino, agora órfão. Entreguei o bebê para os seus pais aliviados, e a família Igreja estava reunida novamente.
   O casal cuidou de nós três como pôde, ligou para o Navalha e o mesmo cuidou de mim e das escoriações do Juquinha. Os Igreja pediram que eu não me esquecesse de visitar o Juca às vezes, queriam que eu fizesse parte da vida do bebê.
   Ao chegar em casa abracei a minha filha ternamente, que não entendeu completamente. Mas, vendo meus ferimentos, ela sabia que era porque eu só havia voltado de mais um dia de trabalho nessa cidade amaldiçoada.

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Fernando Vrech. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.