Contos de Mistério V - O Manuscrito da Verdade Eterna


Pensamos na história desse planeta como tendo início com a criação da Terra, onde se criou a natureza; mas nunca nos perguntamos sobre os eventos históricos anteriores... eras profundas, bilhões de anos antes de nós.

Um manuscrito muito antigo, O Manuscrito da Verdade Eterna, que é mantido em alto segredo até hoje por certa sociedade secreta,
conta eventos que ocorreram no cosmos antes de nós:




   "Milésimos de segundo após a criação do universo por meio de uma explosão, Deus criou entidades poderosíssimas, quase tão poderosas quanto Ele Próprio e muito mais poderosas que os próprios anjos, mesmo aqueles que se rebelaram. Foram os primeiros habitantes do universo.
   Essas entidades tinham a incumbência de reger as forças do universo. Mas essas entidades romperam com Deus e passaram a cumprir cada um sua incumbência da forma que bem entendiam, gerando desarmonia no universo."
   O pensamento do iniciado que lia essa parte era sempre a de uma rebelião, semelhante ao que aconteceu com os anjos. Mas eu interpretei esse escrito diferente: poderia uma entidade nascida, com pouca experiência de vida, enlouquecer por ser quase tão poderosa quanto seu Criador? Pra mim essas entidades enlouqueceram, pois, em minha opinião, somente Deus, infinito em ambas as direções do tempo, é psicologicamente capaz de suportar ser Todo-poderoso. As entidades se embriagaram em seu próprio poder, abandonaram sua posição submissa ao Criador e vagam pelo cosmo brincando com o universo. Mas continuando o relato do Manuscrito:
    "Embora suas atribuições anteriores, dadas por Deus, sejam agora desconhecidas, sabemos que abandonaram suas incumbências pelo fascínio que passaram a ter das inteligências materiais que foram criadas para habitar o universo; um fascínio que produz neles o desejo insano de possuí-los para si, para moldá-los à sua maneira.
    Cada entidade se focou em um conceito da vida social dos moradores do cosmos e desenvolveu maestria nessa essência cósmica: A entidade do Caos, da Vingança, da Influência, da Efluência e seus respectivos irmãos gêmeos opostos, são as principais entidades. E ele se enfraquecem quando estão próximos dos seus irmãos opostos, pois se cancelam; além de debocharem do seu oposto.
    A humanidade raramente nota, e ainda de longe, a existência desses seres, interagindo vagamente com essas entidades metafísicas. Quando acontece essa interação os seres humanos envolvidos os confundem com espíritos de pessoas mortas, seres extra-dimensionais, demônios ou alienígenas. Algumas vezes, a entidade gosta da denominação humana que lhe é atribuída e passa a assumir o nome para si. Raras vezes podem se manifestar por meio de corpo físico, que constroem refletindo suas aspirações.
    Os que mais chegaram próximos da Verdade Eterna foram os místicos Judeus e o Zoroastras. Mas, mesmo assim, o ensinamento deles ainda passa longe da verdade oculta no Manuscrito da Verdade Eterna. Iremos considerar as oito principais entidades:


O Caos e Ordem

    A entidade do Caos, denominada Arimane, foi a primeira entidade a enlouquecer. É uma anarquista completa. Combate a criação de regras e leis e tenta subverter todos os habitantes do universo. Embora metafísico, como todas as entidades, gosta de se manifestar no feminino.
   Seu irmão oposto é Ahura-Mazda, a entidade responsável pela Ordem. O iniciado logo imagina Ahura-Mazda como um santo que luta pela organização do universo. Mas Ahura-Mazda não é classificável entre bom e mal tão simplesmente. É uma entidade que busca a ordem por valorizar o conceito da hierarquia e de leis. Mas é autoritário e tende e restringir as liberdades dos habitantes do universo.


A Vingança e a Justiça


   Temos a entidade da Vingança, Alasthor, que busca promover o sentimento de retaliação imediata a um ataque, seja este qual for. Alasthor promove aos habitantes do universo o conceito de que a vítima e seus próximos, são os únicos que são dignos de serem juízes e executores de seus agressores. Alasthor sempre prefere sentenças baseadas no ódio das vítimas; punição que sempre é maior que a maldade que foi cometida pelo agressor: mutilar a mão do ladrão, torturar assassinos até a morte, desfigurar o rosto dos que traem os amigos ou amantes, arrancar a língua de quem mente ou insulta... punições assim são um deleite para Alasthor. Também é um defensor da "justiça social", desigualdade para os desiguais, o relativismo moral, e tirar de que tem para dar a quem não tem. Na Terra, Alasthor influencia movimentos sociais de direitos humanos.
   Sua contraparte, Nêmesis, que prefere ser identificada como uma mulher, é a entidade da Justiça. Nêmesis acredita que a punição mais justa ao transgressor é a consequência natural dos seus atos.
   Certa vez, Alasthor argumentou com sua irmã que o ódio da vitima é uma consequência natural do ato do agressor, portanto é justo. Nêmesis rebateu dizendo que a ira de um ser, criada pelo ato do agressor, se acrescenta a tudo o que a vítima odeia no mundo; assim, ao agressor é projetada toda a ira interna da vítima, por isso não é justa.
   Nêmesis defende que, para decidir a punição para um transgressor, o juiz deve ser alguém frio à transgressão cometida, devendo tomar uma decisão que resulte na proteção dos outros e não na retaliação ao transgressor; podendo decidir por trancafiar o transgressor, exigir compensação ou mesmo a pena de morte, desde que isso seja para a proteção dos outros. Proteger os outros é a necessidade criada pela manifestação maligna do transgressor, e consequência é o que agrada Nêmesis.
   Mas não há entidades santas; Nêmesis é fria a calculista e despreza a compaixão pelos que sofrem, porque despreza a emoção sobre a razão. Nêmesis também não vê a intenção, mas pune quem causa acidentes fatais com a morte. Certa vez, Nêmesis se manifestou fisicamente e executou uma criança que começou um incêndio.
   Tão fria que, deliberadamente, em sua loucura, arrancou os próprios olhos metafísicos, por crer que a verdadeira justiça não enxerga a condição, tipo ou classe; nem da vítima e nem do transgressor; conceito odiado pelo seu irmão Alasthor. Nêmesis sacrificou a consciência das cores e formas, para dar lugar, exclusivamente, à consciência do fatos! Um resquício da fraca influência de Nêmesis no planeta Terra inspirou o símbolo da "Justiça Cega."


 
A Influência e a Responsabilidade

    A entidade influenciadora, Sharar, ou seu nome completo, Heliel ben-Sharar, é a entidade que crê no progresso do universo, progresso que ele acredita que não deve ser contido, mas livre. É a entidade da Interferência, da Influência. Sharar é a entidade que mais interage com os habitantes do cosmos.
    O iniciado logo se fascina por essa entidade, mas não se apercebe que é a entidade que mais produz efeitos maléficos no cosmos. Foi Sharar quem deu conhecimento científico a humanidade, sem esperar que ela amadurecesse. Indiretamente responsável pela criação de bomba-atômica, por exemplo, e por todo o mau uso do conhecimento. Sharar acredita que a sabedoria deve vir depois do conhecimento, com o aprendizado pelos erros cometidos.
    Os Nagas são uma raça reptiliana alienígena que cultua Sharar. Os Nagas pregam seu deus Shraar para outras civilizações do universo, oferecendo conhecimento científico aos nativos. Por isso, qui na Terra, Sharar é associado à figura de uma serpente, devido aos seus clérigos Nagas. Sharar também é conhecido por outros nomes. Para os gregos, ele é Prometeus, quem deu o conhecimento do fogo para a humanidade; um portador da luz, do conhecimento irresponsável. Tão somente... Lúcifer.
   Seu irmão, Agiel, é a entidade da Razão, da Inteligência Responsável. É uma entidade que valoriza a teoria e a reflexão. Uma entidade filosófica. Crê no oposto dos ideais de Sharar, o progresso natural, sem interferência. Ele está por traz da ocultação de muitos segredos no cosmos, pois crê que ninguém está preparado para saber. Ele crê que um ser só estará maduro o suficiente para o bom uso do conhecimento quando conseguir descobri-lo por si próprio. O deleite de Agiel é a teoria sobre a prática. Sharar o azucrina tentando provocar constantes debates, mas Agiel não participa do debate e o ignora porque não quer interferir no amadurecimento do irmão.

A Efluência e a Necessidade

    Astaroth, a entidade da Efluência, isto é, do Sucesso, da Vontade. É uma entidade que prega que ser famoso é o melhor recurso de um ser. Uma entidade vaidosa, que gosta de divar e aparecer. Arrogante, mas sempre tem muito a oferecer no sentido sensorial. Não tem preferência em ser identificado como masculino ou feminino. É uma fonte de energias emocionais. Infelizmente ou felizmente, é a entidade que menos se fascinou pelos seres materiais, os considerando patéticos e muito carentes.
    Sua irmã oposta, Lilith, é a entidade do Vazio, da Necessidade. Seu ideal é que uma vida de prazeres é a única vida que faz sentido. Ela tem uma necessidade insaciável de ter sensações sejam elas eróticas, visuais, sonoras ou emocionais... da sensação de contemplar um por-do-sol à sensação de matar alguém sem piedade. Ela é a entidade que mais se manifesta fisicamente, preferindo aparecer como uma mulher sensual.
   Existes outras entidades menos importantes. Sabemos que todas as criaturas de Deus foram dotadas com livre juízo para tomarem o caminho que desejarem. Creio que a solução para essas entidades loucas esteja no calendário do Criador, para Quem tudo há um tempo certo."


    Sem percebermos, essas entidades loucas vitimizam os seres físicos; como Nêmesis, quando executou aquela criança. Alasthor espalha o ódio e divide a humanidade em classes antagônicas. Sharar inspira conhecimento desmedido nos humanos; vários cientistas já afirmaram que suas descobertas provinham de vozes em suas cabeças. Lilith é a Sucubus que abusa dos homens em suas camas; muitos homens acordam, depois de um pesadelo erótico, com fortes dores no corpo.
    No momento, temos que lidar com essas criaturas semi-oniscientes que, dificilmente, pensam no bem dos seres físicos. Somos micróbios para essas entidades; tanto que eles podem um dia nos ver como nocivos a elas. Algumas dessas entidades nos veem com tanto desdém que explodiriam toda a raça humana só pra rir do barulho que faz.
    Mas o que podemos fazer contra entidades tão poderosas? Aonde se esconder?

2 comentários:

  1. Ficou muito bom, significativo, uma miscigenação de personagens de algumas mitologias explicando as questões do homem e do universo.

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    1. Que bom que gostou! Na verdade esse conto é como uma plataforma para outros contos que eu escrevo. Eu recomendo a você esse conto: http://fernandovrech.wixsite.com/universotenebra/suburbio

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