Curtas de Mistério I: Como a Esposa do Detetive Tanelli Desapareceu.

    Quando o leitor ler "A Descendência de Jambres", notará que é citado, rapidamente, que a esposa de Tanelli havia desaparecido. Esse evento é melhor detalhado na história que se segue, quando o ex-professor do detetive é pego bisbilhotando o quarto dele.
    O evento se passa em algum momento entre os eventos do capítulo VI do livro, após o café da manhã e a voz da narração é da filha do detetive, Cristina:





    Depois do café, o professor pediu licença e se levantou aparentemente para ir ao banheiro. Pelo visto, seu destino não era só o banheiro. Eu presenciei um diálogo entre o meu pai e o professor que revelava que o professor estava bisbilhotando o quarto do meu pai.
    E não culpo o professor. O quarto do papai é um ambiente interessante para um historiador como o professor. É cheio de livros de história, antropologia, seitas e sociedade secretas. Em um canto do quarto está o mais longo e doloroso caso que o meu pai ainda não conseguiu resolver: o desaparecimento de sua esposa. Nesse canto existem algumas fotos da antiga casa do papai, anotações e um laptop que, felizmente para o meu pai, estava desligado.
    O professor examinava o quarto dele como uma abelhinha em um canteiro florido. Até que ele foi interrompido pela voz do meu pai, em um tom disciplinar que eu conhecia muito bem:
    - O senhor não entraria no meu quarto sem convite se soubesse que eu ando armado! - É claro que ele não falou sério, só usou um recurso de linguagem para mostrar que o professor passou do limite como hóspede.
    Com cara de criança pega roubando doce, o professor responde:
   - Oh! Mil perdões, filho! Não acreditaria se eu dissesse que me perdi procurando o banheiro, acreditaria?
   - Todos ouvimos o senhor dando descarga, professor. Parece que o senhor não mudou nada. Continua abelhudo como sempre, não é?
   - Por favor, desculpe-me. Eu ainda tenho esse problema de me meter onde não é da minha conta. A mesma mania que sempre me levou a descobrir coisas demais. Bom eu... eu notei que o senhor já foi casado. O que aconteceu?
    - Me pede desculpa mas continua a se meter na minha vida, professor? É um assunto que me causa muita dor! Eu não falaria para alguém a menos que eu confiasse muito nessa pessoa. Embora esse não seja o seu caso, me parece que matar a sua curiosidade é a única forma sossegar sua abelhudice. Portanto sente-se aí e eu lhe contarei o que aconteceu.
   Meio sem jeito, o professor puxou a cadeira e se sentou como um garoto de castigo. Então, meu pai continuou:
    "Faz quinze anos que ela desapareceu. Se chamava Silvana. Ela era... é... antropóloga. Estava escrevendo um livro sobre tribos urbanas. O senhor deve saber que tribos urbanas são grupos de pessoas que se interessam pelos mesmos assuntos, frequentemente estilos de rock: os Motoqueiros, os Punks, os Góticos, etc."
    "Ela chegou a convidar alguns góticos para almoçar em casa e fazer uma entrevista com eles. Eu não objetei. Na verdade, estava curioso para conhecê-los."
    "Eram três góticos. O casal estava, claro, de preto; ele de coturno e sobretudo e ela com um longo vestido preto e batom bem vermelho. O outro rapaz estava usando calças pretas resinadas e uma camisa de manga loga, de cor vinho, enfeitada com rendas; um design que lembrava a época renascentista, este tinha o cabelo mais exótico, tipo um moicano."
    "Eu me lembro de alguns pedaços da entrevista."
    "Ela perguntou sobre o medo que alguns religiosos mais fervorosos possuem de góticos, por terem fama de serem sombrios, vampirescos e pagãos. Um dos rapazes respondeu:"
    - Na verdade, grande parte dos góticos são bastante cristãos. Mas alguns de nós busca um equilíbrio maior entre as forças da vida e da morte, apenas expressam a opinião de que a morte é necessária para manter o equilíbrio e deve ser aceita. Muitos procuram cemitérios para mostrarem que não é preciso ter medo da morte. Outros góticos não procuram necessariamente cemitérios, apenas locais sossegados, como parques mal frequentados e praias desertas para refletirem na vida, que também é muito importante para o gótico.
    "Depois a moça completou:"
    - Existem pessoas insanas que se identificam com góticos, agem como góticos, mas acham que precisam assustar os pais para serem góticos: começam a agir como vampiros e talvez até acreditem que sejam mesmo! Chupam o sangue um dos outros, praticam magia negra. Na boa! Isso não é ser gótico! Adorar satanás não tem nada a ver com o goticismo!
    "Durante a conversa, a moça achou bonito o cabelo da Silvana. A gente tinha voltado da praia e ela tomou muito sol, por vários dias seguidos, então o cabelo no topo da cabeça dela clareou, dando um visual... sei lá... Mortícia... para ela."
    "Os góticos avisaram que alguns desses que se acham góticos podem ser pessoas perigosas. Além disso em certos lugares existem grupos ainda mais sombrios que se reúnem em locais abandonados, cemitérios e ruínas. Eles avisaram para ela não sair entrevistando esses grupos noite afora."
    "Certa noite, eu estava fazendo hora extra, em um caso importante, e ela me ligou dizendo que resolveu sair para entrevistar as pessoas. Mas que a noite já havia caído e ela se lembrou do aviso dos amigos góticos. Então ela me pediu para ir buscá-la, na verdade, ela me pediu para ir acompanhá-la nas suas andanças pela noite."
    "Abandonei imediatamente o serviço, fui até o local combinado" - então surge um nó na garganta do papai - "e ela... ela...não estava lá."
   "O velho professor doou seu ombro para que o meu pai desabasse em um pranto a muito reprimido:"
    - Ela não estava lá, professor! Eu procurei ela até amanhecer! Não encontrei nem rastro dela e continuo procurando por ela até hoje!
    - Filho, ela pode ainda ser encontrada! Acredite, muitas pessoas se perderam por décadas e foram encontradas! Eu conheço muito bem a dinâmica social das noites de São Paulo; vou te ajudar a encontrá-la. Vamos fazer isso juntos. Mas não conseguiremos se você não tiver como manter o sustento e temos um caso rentável para resolver primeiro, ok?
    Essa história do papai nem eu mesma tive ousadia de lhe perguntar. Ao final ficamos os três abraçados, como uma família... um clã. Unidos e decididos a, um dia, encontrar o pedaço do meu pai que se desprendeu em uma noite sombria de São Paulo.







    Só lembrando aos leitores que o desaparecimento da esposa do detetive é um tema que será explorado em uma continuação do livro, e não propriamente nesse livro. Mas como citei brevemente o desaparecimento dela no livro, achei melhor desenvolver mais esse aspecto da vida da personagem do detetive. Se o livro fizer sucesso, fica a minha promessa de continuar esse tema, ok?
    Quanto aos direitos autorais dessa história aqui, você pode copiá-la para o seu site gratuitamente, se desejar, desde você inclua: meu nome como autor da história, o artigo inteiro na íntegra, e um link para essa página.

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